A minha jornada na educação com amor e propósito
- 16 de dez. de 2025
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Entre a simplicidade da infância e o amor pela maternidade, encontrei o meu jeito único de educar.
Quando me perguntam por que escolhi trabalhar com educação, eu sempre sorrio, porque, na verdade, acho que a educação me escolheu primeiro. Ela nasceu das experiências, dos encontros e das emoções que fui colecionando desde menina. Das brincadeiras improvisadas, das responsabilidades precoces, da maternidade que me transformou, e do desejo profundo de criar um lugar onde a infância pudesse ser vivida de verdade.
Minhas raízes
Nasci em um lar simples, onde o amor era grande, mas o acesso à informação era pequeno. Minha mãe expressava carinho através do serviço, e que serviço delicioso! O cheiro do pão caseiro, das fatias húngaras e das esfirras ainda vive em mim, como uma lembrança quente de afeto silencioso. Não havia muitos abraços, nem elogios, mas havia presença. Hoje sei que meus pais amavam com o que sabiam, e que mesmo entre crises e dificuldades, o amor sempre esteve ali, do jeito deles.
Cresci observando. Talvez por isso eu tenha aprendido cedo a decifrar silêncios e a entender sentimentos sem precisar de palavras. Acho que ali, sem perceber, nascia a curiosidade que hoje me move de compreender o comportamento humano, o mesmo olhar atento que, mais tarde, se tornaria parte do meu trabalho como educadora.
A menina curiosa
Enquanto muitas crianças tinham brinquedos prontos, eu criava e reinventava a maioria dos meus. Panelas da minha mãe viravam parte da minha casinha, latas viravam telefones, e o terreno ao lado da minha casa era o meu parque de diversões. Lá, com meus irmãos e os amigos da vizinhança, construímos carro de sucata e com a ajuda do meu pai, que, com poucas ferramentas e muito carinho, nos ensinava que criatividade vale mais do que qualquer brinquedo caro.
A infância me ensinou que brincar é a forma mais bonita de aprender. A rua era o meu lugar favorito, lá ficava até tarde, subia em árvores, jogava bets, brincava de esconde-esconde, voltava para casa com os joelhos ralados e o coração cheio de vida. Tenho até hoje uma marquinha no rosto, lembrança de uma infância vivida com intensidade e liberdade.
Naquela época, a educação era bem diferente. Os adultos falavam, e as crianças apenas ouviam. Questionar? Nem pensar! E ainda tinha aquelas frases clássicas que marcaram uma geração: “isso não é coisa de menina”. A gente aprendia a obedecer antes mesmo de entender o motivo. O silêncio parecia sinônimo de educação e o excesso de espontaneidade, uma travessura.
Talvez por isso eu tenha crescido tímida. Bastava alguém me dirigir a palavra e meu rosto já ficava vermelho. Mas dentro de mim havia uma alegria inquieta, uma vontade de brincar, de inventar, de me sujar de terra e transformar qualquer cantinho em faz de conta.
Hoje entendo que aquela infância, vivida entre regras e descobertas, despertou em mim algo muito precioso: o desejo de ver as crianças livres para sentir, perguntar, imaginar e ser, sem medo de errar, sem medo de ser criança.
A maternidade que me transformou
Meu primeiro contato com a educação infantil foi num trabalho voluntário com crianças em uma igreja. Ali, percebi algo que nunca mais esqueci: as crianças aprendem rápido, têm sede de descobrir.
Anos depois, vivi a experiência mais transformadora da vida: ser mãe. Minha primeira filha nasceu prematura e com ela nasceu em mim uma nova sensibilidade. Acompanhar sua recuperação foi como assistir a um milagre em capítulos diários. Aprendi sobre tempo, sobre força e sobre a delicadeza que existe em cada pequena conquista.
Mas quando chegou o momento de colocá-la na escola, encontrei um ambiente despreparado emocionalmente. Faltava acolhimento, escuta, vínculo. E foi ali que nasceu um sonho: criar um espaço onde a criança fosse compreendida, respeitada e acolhida.

O sonho que virou escola
Foi assim que nasceu a Escola PortoKalos. Um sonho que começou dentro de casa e ganhou forma nas mãos de quem acreditava que a infância merecia respeito, leveza e alegria.

E então, veio o nascimento do meu segundo filho. Dessa vez, o cenário era outro, eu já tinha montado o berçário e a escola estava em pleno funcionamento. Não pude desfrutar de uma licença de maternidade como as outras mães; a responsabilidade me chamava. Com apenas quarenta dias de vida, ele já me acompanhava na escola, ao meu lado, enquanto eu tentava equilibrar o papel de mãe e gestora.
Foi um tempo intenso: amor, culpa, cansaço e propósito dividindo o mesmo coração. De um lado, a vontade imensa de ser só mãe. Do outro, o chamado da missão que também fazia parte de mim.
Acho que foi nesse período que compreendi de forma ainda mais profunda as angústias das mães que voltam ao trabalho. A mistura de amor e renúncia, de entrega e responsabilidade. Essa vivência me ensinou a olhar para as mães com ainda mais empatia, a entender que por trás de cada mulher existe alguém tentando se dividir sem se perder.
O propósito
Já se vão vinte anos dessa caminhada. Nela, me formei em Pedagogia — fui até laureada, o que foi motivo de orgulho para quem dividia o tempo entre dois filhos pequenos, uma casa para cuidar e uma escola crescendo junto comigo.
Depois mergulhei mais fundo com a pós em Neuropsicopedagogia, porque sempre quis entender o que há por trás de cada gesto, emoção e aprendizagem.
Mas, acima de qualquer título, o que me move é o amor. O amor que aprendi com minha mãe no cheiro do pão, com meu pai nas brincadeiras improvisadas, e com os meus filhos, cada um me ensinando um jeito diferente de amar e compreender o mundo.
A menina, a mãe e a educadora continuam vivendo em mim, e é delas que nasce o meu jeito de educar.
Hoje, olho para trás e percebo que tudo estava conectado: a menina que brincava com sucata, a mãe que acreditou no milagre da vida, a mulher que dividiu os braços entre o filho e a escola, a educadora que quis construir um espaço diferente.
Elas são a mesma pessoa — partes de uma história que me ensina, todos os dias, que educar é um gesto de fé, de afeto e de esperança.
Eu acredito que a educação não precisa ser rígida para ser séria. Ela pode ser leve, colorida e cheia de vida — porque foi assim, com simplicidade e amor, que tudo começou.




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